terça-feira, 23 de junho de 2015

Teoria do Beijo

O beijo é um dos gestos mais comuns de interacção do ser humano desde há séculos, senão milénios. Compreende o movimento de uma série de músculos à volta dos lábios seguido de uma espécie de sucção ao respectivo alvo. Trata-se de uma prática exercida diariamente por quase toda a gente e que se desmembra em vários contextos e objectivos. Se pensarmos em contabilizar a quantidade de vezes que beijamos num dia, numa semana, num mês, num ano... a vida inteira, percebemos que talvez já tenhamos dado mais beijos do que apertos de mão. Existe aquela distinção cultural entre o ocidente e a Europa, em que nesta o beijo representa um cumprimento informal. Beijamos os nossos familiares, amigos, estranhos, dependendo do contexto e muitas vezes da vontade.

Se repararmos bem, num sentido exagerado, passamos o dia a beijar-nos a nós próprios, quando passamos a mão pela boca, ou a beijar toda a porcaria que vemos à frente, como uma toalha onde nos limpamos. Tu vê lá bem onde é que já meteste a boca! Na peça de roupa usada, na fotografia de alguém querido, na escultura de devoção, no pão, no telemóvel topo de gama que acabou de cair ao chão e se desmantelou (na esperança que ele volte à vida), na caneta enquanto que lês um artigo, na garrafa de água, no cheque milionário que acabou de chegar, no chão que o teu ídolo pisa, no solo da terra em que nasceste, no ecrã do computador quando finalmente consegues colocar os parágrafos do texto da maneira que idealizavas, na página aleatória do livro novo enquanto que o cheiras, na porta com que acabaste de levar... Se considerarmos cada uma destas acções como um "beijinho", então somos uns seres altamente beijoqueiros!

De facto, quando falamos num beijo (aquele beijo!), na realidade estamos a referir-nos ao beijo de boca. Ou melhor, ao beijo de bocas. Dois pares de lábios que se tocam. Do simples "xôxo" ao "linguado", um leque de variados sabores, texturas, tempos de acção, cargas de adrenalina, bateres de coração empolgantes, afrontamentos de calor, etc. Os beijos são actos determinantes nas relações amorosas, emocionais e sexuais. Nas relações amorosas, são uma espécie de ponto a picar. A aproximação física entre os enamorados obriga a "picar o ponto" logo no momento em que os olhares se fitam e antes que estes se virem para o lado. Serve também como sinal de despedida, para deixar a saudade até se iniciar novo turno. Nos casais mais frescos, a máquina tem tendência a não validar à primeira, pelo que repetem várias vezes e com maior insistência para que fique bem registado, tal como aquelas pessoas que entram no elevador e carregam muitas vezes no mesmo botão para que o elevador chegue talvez mais depressa ao destino. Nos casais que estão afastados há algum tempo, a máquina demora mais tempo a reconhecer os dados, pelo que têm de permanecer imóveis e de lábios juntos até ser conferida a credenciação. Nas relações emocionais, os beijos tendem a ser mais desprovidos, marcando mais um simbolismo do que um sentimento. Nas relações sexuais, são como que um farol; uma notificação "eu ainda estou aqui". Marcam o início da prova, vão ressurgindo quando as posições assim o permitem, e apontam também o culminar, podendo ou não acompanhar o climax da situação. Na maior parte dos casos, até a enfatizam.

Em cada situação, existem variados tipos de beijos. O "beijo inocente" é aquele que é dado com muita vergonha e timidez à mistura; uma das partes dá o passo e ri-se como que um ratinho depois de tomar ecstasy. O "beijo amargo" é aquele dado depois de se beber café; quente, mas de um lote meio queimado. Não é dos melhores. O "beijo doce" costuma vir acompanhado com uma pastilha elástica, normalmente com sabor a morango ou melão; incómoda, que salta de boca em boca, até alguém se decidir a deitá-la fora. Também é uma falta de respeito mascar uma pastilha elástica quando se beija; é preferível haver o "corte" antes de se começar. O "beijo do Ártico" pode também vir acompanhado de pastilha elástica com sabor a mentol, mas é mais comum após uma lavagem com pasta de dentes, da qual podem sobrar alguns restos para manter o... ambiente. O "beijo doloroso", quando a outra parte insiste em nos chupar o lábio inferior com muita força, puxando-o e provocando uma dor incómoda. O "beijo alcoólico", em que apanhamos uma bebedeira só de levar com o bafo a whisky ou vinho que vem do outro lado. O "beijo múltiplo", em que ao invés de um único beijo duradouro e envolvente, são dados mini-beijos sem permissão de língua numa espécie de toca-e-foge. O "beijo católico", em que se chama por uma entidade superior ou se reza por ela entre dentes. O "beijo de alta definição", em que se ouve todos os sons da "natureza oral", desde os gemidos de prazer aos ruídos provocados pela saliva a ser sugada, quase que absorvendo as entranhas do parceiro. O "beijo gastronómico", no qual se dá a provar restos de comida que ficaram entre os dentes. O "beijo doente", no qual se adiciona muco proveniente das narinas, numa época de constipações e resfriados. O "beijo da Bela Adormecida", em que uma das partes simplesmente não se mexe. O "beijo canibal", em que quase nos abocanham a cara toda. O "beijo de reanimação", em que nos sopram uma lufada de ar para dentro da boca, como se estivéssemos a morrer. O "beijo matinal", com o típico "bafo da fome" a castigar o amor. O "beijo indesejado", quando a boca acerta no nariz. O "beijo estrábico", em que as pessoas insistem em permanecer com os olhos abertos. O "beijo do acrobata", em que, quando os lábios se afastam, permanecem ligados por um fio de baba, suficientemente espesso para sustentar um elefante apoiado numa pata, erguendo um chapéu de chuva aberto. O "beijo de cinema", em que as bocas isolam todo o seu interior, não permitindo entrada ou saída de ar. O "beijo sonolento", normalmente interrompido por um bocejo. O "beijo felino", em que nos lambem a cara, como se de um gato se tratasse. O "beijo da sonda", em que uma língua nos invade e percorre cada milímetro do interior da boca, contando os dentes um a um. O "beijo do vampiro", em que nos mordem ou trincam com força. O "beijo duro", em que os dentes insistem em bater. O "beijo mole", em que se retiram os dentes antes de beijar. Enfim... uma panóplia infindável de beijos.

São poucas as pessoas que sabem verdadeiramente beijar. Não têm culpa, embora. Precisam de alguém que as ensine. E nem sempre estão preparadas para beijar ou ser beijadas. A pressão num determinado momento pode comprometer a "performance" de um beijo, pois nem sempre são esperados. Os beijos-surpresa deveriam ser os mais românticos e inesquecíveis. Mas são quase sempre esses interrompidos por um espirro, uma tosse convulsa, a aproximação de outras pessoas, o nervosismo latente. É preciso alguma prática e uma devoção sincera para se saber proporcionar aquele calor e aquele pequeno prazer pouco ou muito duradouro. O facto de um beijo ser bom ou mau pode determinar o início, a continuação e/ou o fim de um relacionamento. É a verdade.

Definitivamente... um beijo envolve muito mais do que lábios e língua. Todo o corpo se movimenta e o exponencial de prazer aumenta a cada segundo, pois tal acto faz percorrer a adrenalina e dá um grau de satisfação equivalente ao prazer de comer, dormir ou amar. E quando é com amor, maior é a intensidade. Mas nem todos os beijos têm a ver com o amor. São, afinal, uma necessidade.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Teoria dos Fantasmas

Acontece a todos e, na maior parte dos casos, é impossível evitar: viver com os fantasmas do passado. E quando falo em passado, pode até ser um muito presente. Mas a partir de quando é que consideramos alguém como um fantasma? Esta expressão serve para caracterizar uma pessoa que não queremos ver, de quem temos "medo", que nos faz parar para pensar. Os comuns fantasmas são almas de corpos que padeceram e que não estão mais presentes fisicamente. A mitologia sobre estas entidades é variada e tem sido nos últimos anos muito utilizada para identificar situações não resolvidas, ou seja, eles aparecem para nos ajudar a resolver um enigma ou para nos lembrar que continuam do nosso lado de uma forma espiritual ou ainda para nos dizer quem foi a pessoa que os tornou um fantasma. Já não são vistos como coisas que estão atrás de uma porta ou que saem das paredes para nos assustar. Aliás, a conclusão de qualquer das histórias actuais é de que a intenção do fantasma em nos aparecer é tudo menos assustar. Nós é que temos a mania de dar um gritinho diabólico e correr porta fora porque é assim que se faz nos filmes!

Mas esses fantasmas não existem senão no nosso subconsciente. São uma mera ideia, uma personificação de alguém que já não existe. É-lhes dada "vida" por sentirmos saudades ou apenas por pensarmos na forma de pensar que essa pessoa tinha em vida. Não é desses fantasmas que pretendo falar. Quero sublinhar e contextualizar os fantasmas das pessoas que ainda estão vivas. Que andam por aí. Essas pessoas que não queremos ver. Mas que gostaríamos, uma vez ou outra, de saber como estão. Essas pessoas de quem temos "medo". De quem temos medo de reatar sentimentos. Essas pessoas que nos fazem parar para pensar. Para pensar nos "se"s e nos "porque"s. Para que isto aconteça, é necessário que exista um certo grau de importância. Então, sendo assim, o que é preciso para que uma pessoa atinja o mérito de ser um fantasma do passado? Muito simples: basta ter criado um impacto suficiente para se caracterizar com uma importância suficiente para nos lembrarmos dela sempre que nos sintamos insuficientes com o nosso próprio pensamento. Todas essas pessoas (porque pode ser mais do que uma) tiveram um momento connosco, um período em que fizeram e aconteceram coisas que, hoje, ganharam um significado. E que também definem uma parte daquilo que somos.

Só com o passar do tempo é que percebemos o quão importante uma pessoa foi (ou é) para nós. E isso acontece quando realizamos a quantidade de vezes que essa pessoa nos aparece no pensamento. Posso dizer que há pessoas sobre as quais penso... todos os dias! Não estou a exagerar. É a sério. Não há um único dia que passe sem eu pensar em algumas pessoas. Nem que seja por uns micro-segundos. Mas acontece, sim. Isto revela o quão forte foi a história, o quão importante essa pessoa é e o quão infinito é o que sentimos por ela. Sim, é para sempre. Não, não conseguimos apagar da memória. Há pessoas que vêm para ficar, mesmo que não o queiramos. Temos apenas de aprender a viver com esses pensamentos. Mas garanto que são sempre mínimos. Numa ou noutra altura poderão ter direito a tempo de antena mais prolongado, consoante os acontecimentos actuais. Mas isso acontece quando se fazem comparações, quando se visitam sítios, quando se observam pormenores identificáveis ou, o mais natural, quando se sente saudade. Saudade dos bons tempos, não dos maus.

Como é que lidamos, afinal, com a existência destes fantasmas? Ainda que só em pensamento, corremos sempre o risco de apanharmos com um espectro destes à nossa frente. Ou de continuamente sermos notificados sobre a sua existência. A sério? Já não chega só o que nos vai na cabeça? Pois é. A partir do momento em que aquela pessoa começa a figurar "demasiadas vezes" na nossa mente, seja por que motivo for, é automaticamente definida como espectro. Fantasma do passado. Mas embora do passado, será mais presente do que pensamos. Tudo porque assim o queremos. Porque deixámos que assim fosse. Depois há a maneira como vemos esse fantasma, diariamente. E tem dias. Umas vezes são as piores pessoas que passaram pela nossa vida e temos todos os motivos para esperar que se tornem num verdadeiro fantasma. Outras vezes são apenas pessoas que nos fizeram bem em determinado momento. E focamo-nos nesses momentos: as boas memórias.

Definitivamente... saber viver com os fantasmas do passado faz parte do dia-a-dia, para todo o sempre; e em cada dia a maneira de os ver é diferente, e será sempre diferente. Até que "voltem à vida". Ou não. Se quisermos.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Teoria da Esfrega

"Ó Povo, que lavas no rio", diziam (e ainda dizem) alguns fadistas por esse país fora. Hábito esse que deixou de ser posto em prática. Qual seria o significado de lavar alguma coisa no rio? Provavelmente porque a água tudo lava, à excepção das más línguas, e o rio teria a função de levar para longe toda a sujidade. Mandar embora o que era mau.

Com o passar dos anos, desenvolveu-se a expressão "lavar roupa suja", que determina o acto de discutir factos potencialmente prejudiciais para o bem-estar das pessoas, por forma a estas atingirem um nível de conhecimento sobre si próprias ou sobre outras e estabelecerem critérios sobre aspectos que não querem repetidos. Basicamente, é um jogo entre duas ou mais pessoas, sendo que é vencedor quem conseguir reunir mais frases de insulto com tempo mínimo de resposta directa. O desenvolvimento tecnológico permitiu que hoje em dia esta lavagem seja na sua maioria virtual, indirecta.

Ora, lavar roupa suja (no rio) implica pegar nas peças que estão sujas, molhá-las, aplicar um detergente, esfregar, esfregar, esfregar, virar ao contrário, ensopar novamente em água, esfregar outra vez, bater aquela porcaria contra as rochas, por vezes atirar com força contra as mesmas, esfregar outra vez... mesmo que as nódoas já tenham desaparecido. Entretanto, já o rio está a fazer a sua parte e a levar as nódoas, agora invisíveis, pelo seu leito extenso e para longe. Para longe tanto do lugar onde se sujou a roupa como do lugar onde se a lavou. Não queremos ver aquelas nódoas nunca mais.

Imaginemos uma nódoa de vinho, por exemplo. É daquelas difíceis de tirar. E mesmo quando a conseguimos tirar, mais tarde volta a aparecer outra muito idêntica. Não é a mesma. Mas a pessoa que se descuidava a sujar a roupa com vinho voltou a sujá-la. E porquê? Porque tem o hábito de beber vinho. Não vou dizer se esse hábito é bom ou mau. A parte má é a de continuar a deixar entornar o vinho na roupa! O cansaço que é estar sempre a lavar a "mesma" nódoa vezes sem conta. E aquela que nunca chegou a sair como deve ser? Com o passar do tempo, já nem damos importância. Já faz parte da peça de roupa. É ténue, quase não se vê. Mas se esticarmos a peça e a levantarmos para a observarmos no seu esplendor, conseguimos reparar na diferença nas cores. Quase que desapareceu, mas ainda lá está. E, muitas vezes, só a consegue ver quem sabe de facto que ela lá esteve. E sabe a côr carregada que tinha antes da primeira lavagem. Lembra-se da cara de nojo que fez ao dar a primeira esfrega. Os lábios encarquilharam-se e formaram uma curva virada para baixo, não permitindo sequer acompanhar os cânticos próprios da lavagem no rio. Raios partam esta nódoa!

Mas nesses tempos, as nódoas eram encaradas de frente. Dar-nos-íamos a esse trabalho. Hoje são as máquinas que lavam a roupa. E mal. O povo deixou de lavar no rio. Hoje o povo lava a "outra roupa suja" pelo telemóvel, nos chats sociais. E já nem utilizam a língua para o fazer, mas sim os dedos. Numa troca desenfreada de mensagens de texto, as palavras resumem os sentimentos, a raiva, o desgosto, o perdão, substituindo o olhar, o tom de voz, as lágrimas, os sorrisos, o aconchego. E quanto mais "corda" se dá, mais extensa será a discussão. E no tempo entre respostas, essas mesmas mensagens que ficam automaticamente gravadas podem ser lidas e relidas, copiadas e coladas, acrescentadas, excertadas, até ignoradas.

Pergunto-me. Nesta situação, o que é o rio? Onde está? Onde está o rio que leva as nódoas? De onde vem a água que leva para longe aquilo que não queremos voltar a ver, ouvir ou sentir? E respondo-me. Não há, não está, não existe. Ou seja, as nódoas, essas, vão ficar. Para sempre.

Definitivamente... não há nada como a lavagem de roupa suja à moda antiga, a bater com força, esfregar, esfregar, esfregar... Que energia tão bem gasta!

terça-feira, 4 de março de 2014

Teoria da Necessidade

Podemos demorar algum tempo. Podemos demorar pouco ou muito tempo. A demora pode ou não ter justificações. O tempo é que não pára. Mais cedo ou mais tarde tudo se resolve [como eu costumo dizer...]. E a verdade é essa. Tudo se resolve. Pode é não ser da maneira que esperamos ou como desejaríamos que fosse. Mas para quê lamentar quando sabemos que fizémos algo por nós ou pelos outros? O verdadeiro orgulho é aquele sobre o qual está uma acção feita por nós e para nós. E que de certa forma implica uma reacção nos outros. A relação causa-efeito está presente em tudo o que fazemos ou até no que nem sabemos que estamos a fazer.

Mas, de repente, chegamos a um ponto em que fazer algo não está dependente só de nós. Precisamos de alguém. Precisamos de ajuda. Precisamos de um empurrão. De um abraço. De um estalo. De um beijo. De um afecto. De um olhar. De um sorriso. Precisamos por vezes de uns trocos. Outras, precisamos de mais do que uns trocos. Outras ainda precisamos só de uma assinatura. Enfim, precisamos sempre de uma conexão. Uma ligação directa com alguém. Um compromisso. Um "casamento". Uma espécie de confirmação. Conheces alguém que tenha feito tudo na vida sozinho? Sem depender de outrém? Claro que não.

Há sempre alturas em que precisamos de alguém. Seja para o que for. Até para o que não queremos. Mas para o que é necessário. E nesse momento, somos o ser humano mais humilde, pobre e desgraçado do planeta. Somos o mais necessitado. Tal é o nosso desespero, que não nos lembramos de milhares de crianças que morrem de fome diariamente nos países sub-desenvolvidos. Ou das famílias que sofrem com as guerras. Dos animais que são abatidos no seu habitat natural. Das pessoas a quem são retirados direitos ou posses. Não nos lembramos, simplesmente. Nesse momento, somos a pessoa mais importante do Mundo, só porque precisamos de algo de alguém.

Viramos agora o tabuleiro ao contrário. E quando alguém precisa de nós? Quando alguém nos pede algo? E quando alguém não nos pede ou o faz em silêncio? Quem somos nós? Somos o banco, o hospital, o psicólogo, o amigo, o inimigo também, somos a escola, a universidade, o meio de transporte. Somos o cozinheiro de serviço, o taxista, o professor. Somos o carrasco, o juíz, o ladrão. Somos, na maior parte das vezes, o advogado. Somos tudo aquilo que nunca quisémos ser. E tudo aquilo que sempre quisémos ser. Nem que por tempo limitado. Outras vezes, seremos algo para sempre.

Creio que, na realidade, não é necessário um papel assinado após um voto de "ser-te fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida"... Quando alguém precisa de nós, fazemos esse voto sem pestanejar. Sem assinaturas. Sem orações. Sem discursos. E não depende de para quem iremos prestar ajuda. Depende da capacidade que temos no momento para ajudar. Mas será que esse outro alguém precisa mesmo de ajuda? Lá estamos nós a ser juízes. Lá estamos nós a armar-nos em professores. Lá estamos nós a ser carrascos. Quem somos nós para saber? Se acharmos que não temos de ajudar, o que pensaremos quando os papéis se inverterem? Teremos a coragem de pedir ajuda?

Este post vem no sentido de acontecimentos muito recentes. E foi despoletado também por causa de uma música que tocou na rádio, ao fim de mais de uma década de ser lançada. Na altura, já não a podia ouvir, tal foi o desgaste promocional, tanto nas rádios como nas televisões. Ao fim de tanto tempo, acabou por fazer todo o sentido... O título é "You Might Need Somebody", da Shola Ama.

Definitivamente... somos muito mais para os outros do que somos para nós. Mas continuaremos sempre a precisar dos outros. Eu... continuarei sempre a precisar de ti. Para tudo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Teoria dos Dentes

Vou transcrever para aqui um texto que vi hoje publicado. Cada letra e cada palavra estão TAL E QUAL como no texto original. Ora aqui vai:
"Pertenço ao grupo dos VENCEDORES
Na vida ha 2 tipos de pessoas: os vencedores e os outros. Pertenço ao grupo dos que conseguem tudo o que querem! Se tens uma carreira de sucesso, pertences a um nivel social alto, tens corpo definido, dentes perfeitamente brancos, podemos entendernos :)"

[Pausa para respirar...]

Ora bem!
É difícil saber por onde começar, ao analisar uma tragédia destas. Mas talvez por partes seja o melhor. Comecemos pelo slogan, em que a palavra VENCEDORES assim em maiúsculas determina que temos ali uma pessoa altamente convicta das suas capacidades. A curiosidade puxa-nos para a questão de "vencer o quê, propriamente?". E "a quem?". Depois, seguimos para a fundamentação e logo no início pensamos que a criatura escreveu à pressa e não fez uma revisão à sua apresentação, pois "há" leva um acento no "a". Mas tudo bem. Não seja por isso. Claro que concordamos se alguém disser que há dois tipos de pessoas: há uns e há outros. Mas quando esta criatura denomina uma parte como "vencedores" e a outra como "outros"... Então espera aí! Não era suposto ser o oposto, ou no mínimo uma diferença relevante? Pois o contrário de vencedores é perdedores. Por esta lógica, se um dos tipos de pessoas tem obrigatoriamente de ser o dos vencedores, então o outro tipo de pessoas tem de ser dividido em vários tipos de pessoas, pois só os "outros" é insuficiente. E nem todos os outros são perdedores. Podem ser meio vencedores, ficar em 3º lugar ou podem até nem sequer jogar ao tal jogo que a criatura parece querer jogar.

Mas temos a resolução deste dilema logo na segunda frase, embora não seja evidenciado o arrependimento sobre a primeira. Afinal a criatura não se define como estando num daqueles tipos de pessoas. Está no grupo dos que conseguem tudo o que querem... hhmmm... Confuso? Não, nem por isso. No facebook, podemos pertencer a vários grupos. Porque não na vida real? Mesmo assim, conseguir tudo o que queremos não significa que sejamos vencedores. Há coisas que conseguimos mesmo sem esforço nenhum. Lá se vai o mérito da criatura!

O interessante vem logo depois, no perfil que o destinatário deverá ter. Ora vejamos. Carreira de sucesso? Claro. Quem é que não tem uma carreira de sucesso? Pensa lá bem. Alguém te vai dizer que a sua carreira é uma tristeza? Se o ordenado entra ao fim do mês, os objectivos foram atingidos e o sucesso é garantido. Pertencer a um nível (sim, com acento no "i"!!) social alto... hhmmm... Não, acho que aqui as hipóteses ficam muito escassas. Se analisarmos a alta sociedade, é constituída maioritariamente por pessoas já com alguma idade, já casadas, e que não procuram nada nem ninguém; ou seja, não há grandes possibilidades de se cruzarem com esta criatura, seja onde for. Teríamos de nos remeter apenas aos filhos e netos dessa alta sociedade, cuja diferença para a sociedade "baixa" não é muita, uma vez que as necessidades fisiológicas são iguais, o ar que respiram é o mesmo, são todos seres humanos, etc. O que poderá mudar são os sítios que frequentam, os lares onde habitam, a localização geográfica onde predominam.

O corpo definido. Sim, toda a gente tem o corpo definido, excepto se for um menor de idade, em que o corpo ainda está por definir, ainda não está formado como deve ser, ainda há músculos, glúteos e afins para desenvolver. E mesmo quem ultrapasse a menoridade ainda tem alguns pontos a desenvolver fisicamente, na maior parte dos casos.

Dentes perfeitamente brancos. O advérbio aqui vem evidenciar que a criatura quer algo artificial, sem sombra de dúvida. E sem sombras nos dentes. Esqueceu-se de evidenciar que outrém teria de ter também todos os dentes. Arrisca-se, portanto. E finalmente termina com um dos maiores horrores da história do vocabulário português. Existem dois tipos de horrores: o grupo dos hífens a mais e o grupo da falta deles!! Assim, não podemos ENTENDER-NOS!!

Podemo-nos entender? Podemos entender-nos? Podemos entender o que é que esta criatura quer? Podemos entender o quão ignorante esta criatura é? Podemos rir de boca aberta (com ou sem dentes e brancos ou não-tão-brancos) sobre o que esta criatura diz? Podemos meter-nos à frente de um espelho, olhar-nos de alto a baixo, piscarmos o olho a nós próprios e lamber o canto da boca? Podemos ajoelhar-nos perante um Dicionário da Língua Portuguesa e rezar todas as noites para sermos o mais acertivos linguisticamente no dia seguinte? Podemos, sim! E, vá lá, não errou em metade, pois já vi alguém escrever "pode-mos"...!

A conclusão é que esta criatura precisa de não aparecer em público, não se pronunciar, não pedir ou exigir seja o que for, sem antes ter a perfeita noção das suas capacidades e incapacidades e, acima de tudo, ter a noção do meio em que vive. O nível de exigência é tal que, se analisarmos, não existe tal coisa possível de prover um nível satisfatório. E mesmo quem esteja perto, só pelo erros ortográficos, foge! Mas pela lógica da criatura (quando se trata de publicar um texto tão acertivo), então... Há dois tipos de pessoas: as que sabem escrever e as ignorantes! E a criatura está longe de vencer seja o que for, pois perde à partida, tamanha é a ignorância em não fazer uma revisão, ou não saber fazê-la. Compreendo a pressa. Mas a corrida é infrutífera. A criatura pertence, sim, ao grupo dos "LOSERS".

Definitivamente... há pessoas que deviam levar com um dicionário na boca até ficarem sem dentes, por mais brancos que sejam!!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Teoria da Infidelidade

Decidi de uma vez por todas admitir algo que tem estado escondido na minha vida, algo que tenho ocultado ao longo dos anos. Não é chocante, não é revelador, não é constrangedor. Acho que nem sequer é previsto em qualquer código de ética, lei ou norma. Faço disto um modo de vida, do qual ninguém tem de saber ou manifestar opinião. E é tão simples como isto: tenho uma amante. Sim, isso mesmo. Tenho alguém que me conquista, que me dá o que preciso quando tenho essa necessidade, que não me pede justificações, que não me manda mensagens para o telemóvel, não insiste em experimentarmos "coisas novas", faz-me exactamente o que eu quero, sai-me relativamente barata e nem perco muito tempo com ela. Chama-se água. E atenção que ela não é uma qualquer! Não é dessas oferecidas que andam para aí. Aceito-a tal como ela veio ao mundo. Tenho o prazer de a temperar da forma que eu achar melhor para mim. Tenho pensado nisto por causa do clima frio que por vezes insiste em aparecer. A água quente no Inverno é a melhor amante que podemos ter. E principalmente porque não a partilho com mais ninguém (lá de vez em quando se pode admitir um ménage à trois, mas ela é ciumenta e pode mudar a temperatura, tanto para muito fria como muito quente).


Costuma-se dizer que a água tudo lava, só não lava as más línguas. Ora eu acho que lava tudo. Tomar um bom banho de água quente é uma experiência única e muito íntima, daí que na maior parte das vezes eu demore mais do que é considerado habitual. O politicamente correcto é dar uma enxaguadela, espalhar o shampoo, mais o gel de banho pelo corpo todo, esfregar para fingir que mandamos embora as bactérias todas que voltamos a colar na pele com a roupa lavada, e já está. Em 5 minutos, o banho está tomado e estamos fresquinhos e cheirosos para podermos conviver na sociedade. Mas comigo não é bem assim. Se ela está comigo na banheira ou no chuveiro, eu não consigo ignorá-la. E tem aquela mania da sedução, o que é altamente excitante. Começa por se armar em fria, a contar-me por onde andou nas últimas horas, as conversas de canos, as filas de trânsito porque alguém não pagou uma conta, as viagens que fez pelo mundo, os trambolhões que deu nas montanhas, o surf que praticou nos rios (coisa inédita!), enfim... um rol de histórias até que comece o acto.

Lá eu lhe toco com os pés e ela começa finalmente a mostrar o seu lado mais amoroso. Decido colocá-la por cima de mim e banhar-me com o seu amor incondicional. Ela toca-me em todo o lado onde mais ninguém toca (se aplicável). E repete, se for preciso. Lembro-me daquelas massagens em que, quando acabam, desejamos só mais 2 minutos. E a comunicação é fogaz. Parece que ela me pergunta "estás a gostar? hm?", e nunca, mas nunca me vem com palavriado ridículo, nem sequer propõe mudanças de posições sem sentido, nem tem atitudes parvas e, até hoje, nunca teve o desplante de se ir embora a meio. É nessas alturas que eu penso nos milhares de pessoas que não têm ou não podem ter este pequeno prazer. Infelizmente, é uma necessidade para demasiada gente. Muito provavelmente, é este nível de pensamento que me faz perder a pica e dar por terminada a sessão. Isto e as contas no fim do mês!

Será que poderemos considerar isto uma traição? Talvez. Porque sou capaz de ignorar um ser humano por quem nutra grandes sentimentos para poder estar com esta minha amante durante uns minutos. A outra pessoa não tem de saber que eu tenho esta leviandade, mas pode participar sempre que quiser. A coisa funciona bem, até. Lá pode achar que eu estou a dar mais atenção à amante, mas duvido que faça algum comentário. Sim, porque normalmente sou eu que ponho a mão na torneira, pelo que posso tornar a amante bem fria, à minha vontade! Mas considero então como uma traição saudável. Há pessoas que até traem com as quentes e com as frias, mas essas pessoas são loucas: não conseguem contentar-se só com uma amante!

Temos, muitas vezes, a necessidade de nos exorcizarmos. Dos nossos problemas, das nossas frustrações, do nosso stress. Mas é na água que encontramos uma calma e paz de espírito inconfundíveis. Para além de ser um momento íntimo, temos aquele prazer que mais ninguém nos consegue dar. Até cantarolamos! E no fim, saímos despreocupadamente e tomamos como garantido que o vamos repetir. Há melhor amante do que esta? Até tem a paciência para ouvir os nossos pecados, acalmar-nos quando estamos nervosos ou tristes. E parece que saímos curados de todos os males e dores.

Definitivamente... há pessoas que precisam de um bom banho para lavar a alma!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Teoria da Atracção

Saber dizer "não" é uma arte. Já pensei em escrever um post sobre este tema, mas ainda não reuni a informação suficiente; acho que falta qualquer coisa, mas está para breve. Porque, de facto, eu sei dizer "não". Se for necessário, ainda incluo um ou mais pontos de exclamação e digo-o com letras bem grandes. Um dos meus maiores fetishes é andar na rua com uma t-shirt branca com a palavra "NÃO!!" em letras pretas, para ficarem bem à vista, mesmo ao longe. Por acaso, de vez em quando, tenho a mania de dizer "não" a pessoas desconhecidas na rua, como quem diz "bom dia" a um colega ou a um vizinho. Experimentem fazê-lo; não têm de se sentir culpados, porque, na maior parte das vezes, essas pessoas acham que não era para elas ou então nem ouvem. A regra é manter sempre o mesmo tom. Tipo o Exterminador Implacável. Nada de berros, para não arranjarmos confusão ou termos de dar explicações. Por outro lado, nada de sussurrar. Se é "não", então "não!".

Dizer "não" na cara de uma pessoa acaba por se revelar uma tarefa fácil. Sincera. E se mostrarmos convicção, o assunto fica arrumado num instante. Mas nesta nova era, em que as pessoas já pouco se cruzam, pouco se vêem, pouco se tocam (nos dois sentidos), pouco se ouvem e muito menos se cheiram, por vezes temos de dar este ultimato por teclas. Ora, então, como é que escrevemos um "não" destes? Ou seja, como é que demonstramos numa só palavra que de facto não queremos este ou aquele serviço, que não precisamos deste ou daquele argumento, que não aceitamos esta ou aquela proposta? De facto, é fácil escrevê-lo. Ainda mais fácil em inglês. Por mais que nos custe, às vezes, em situações que nos dão pena. Nesses casos, ainda nos damos ao trabalho de incluir um "Lamento", um "Pois", um "Mas", um "Se", um "Desculpa"... tudo para evitarmos enviar um "Eh pah...", um "Olha lá, 'tás-te a passar?" ou um "F*da-se, que nojo!". O vocabulário português é (senão o maior) dos mais ricos do planeta Terra, e temos de o saber usar correctamente quando toca a assuntos sérios e quando corremos o risco de ferir susceptibilidades de outras pessoas. Sim, pois na realidade nunca sabemos qual é a verdadeira reacção do outro lado. Será que a outra pessoa levou a bem ou a mal? Será que ficou triste? E ainda nos culpabilizamos pela nossa própria honestidade! Eu acho que só o facto de nos darmos ao trabalho de responder a certas coisas já mostra um pouco do nosso carácter e o quanto conseguimos ser imparciais e permeáveis à psicologia dos outros.

Ao analisar o "mercado da atracção", deparamos com uma vasta oferta para todos os gostos. É mais a oferta do que a procura. Se este comportamento se reflectisse economicamente, Portugal seria um país muito abastado. Não necessitamos de importações, pois somos um dos povos mais bonitos e até somos geniais em termos de ideias. Temos, portanto, uma sustentabilidade sexual acima da média, quer europeia, quer universal. Atenção, não estou a falar da prática de sexo, mas sim da inter-relação sexual a nível emocional, atractivo, social. E este mercado notabilizou-se e ganhou forma depois da explosão cibernauta do novo milénio. A difusão generalista permitiu-nos adquirir novos conhecimentos e ajudou na disseminação de alguns tabus, mas não todos. E ainda bem. Têm de existir tabus, caso contrário o planeta tornar-se-á demasiado pequeno para tanta gente e as regras deixarão igualmente de existir. O que já não existe, na prática, é o conservadorismo. Na intimidade. Podemos assistir a "pitas" de 16 anos que discutem a quantidade de vezes que praticam sexo numa semana, e com quantas pessoas diferentes o fizeram. E o que têm agendado para o mês seguinte! Parece mentira, mas é a pura das verdades. A sério, isto acontece no nosso país. Mas lá está, o conservadorismo teórico não admite este fenómeno. Na sua maior parte, os pais, ou a constituição "família", não tem inscrita nos seus valores a hipótese de isto acontecer. Pudera! A evolução tecnológica avançou demasiado depressa para ser acompanhada, portanto sabe-se lá as milhentas maneiras que um adolescente tem hoje em dia para se... desenrascar.

Numa perspectiva de adulto, a capacidade do "desenrasque" acaba por ser a mesma. Ou seja, os adultos acabam por se comportar como adolescentes. E a fasquia aumenta conforme aumenta a disponibilização de páginas na internet, aplicações de telemóveis, locais específicos de encontros casuais, redes sociais (que ajudam a ocultar segundas intenções). Nascem conceitos, sub-géneros, novos géneros, novos comportamentos. A vontade é que é sempre a mesma. E tudo parte da vontade, como eu costumo dizer. Mas até onde podem as pessoas chegar? Ora então vamos lá fazer um registo naquele site que o colega nos falou porque tem gente assim e assado, ver o que há (só espreitar para ver como funciona, não é?) e ter uma ideia geral de como as coisas andam. E é o choque! Nem na televisão se vê disto. De facto, há gente para todos os gostos, todas as idades, para todos os fins. Mas eis que ao fim de um tempo pensamos "onde é que eu já vi isto?".

Deparamos então com um ou mais padrões. Tanto na forma escrita de apresentação, como na forma visual. Na escrita, faz-se uma divisão de 50/50 em que uma parte procura apenas amizades; a outra parte procura saciar a fome custe o que custar, sem dó nem piedade! Aqui percebemos que neste país há muitas pessoas sem amigos... Colocamos um sorrisinho carinhoso na cara, com uma pitada de solidariedade, e indagamos se estamos dispostos a criar uma amizade com aquele par de mamas ou peitorais que nos são apresentados em formato HD, versão "devora-me já 6.9" e sempre, ou quase sempre, tendo como cenário a poeirenta e bonita praia ou a lavadinha e mal decorada casa de banho. As da praia surgem maioritariamente no período de Julho a Setembro. A partir daí já são pouco frequentes; afinal, qual é a lógica de mostrar o bronze ao lado de uma árvore de Natal? Por outro lado, as da casa de banho são intemporais, uma vez que toda a gente as frequenta pelo menos uma vez por dia, segundo mandam as tradições higiénica, urinária e intestinal, pelo que é uma questão de oportunidade ("Olha, já que estou aqui, deixa cá tirar uma foto..."). O engraçado é que numa casa de banho ou até na praia, a lei da gravidade faz com que a máquina fotográfica ou o telemóvel com câmara ganhem um peso autêntico e façam descair o plano da foto, pois as caras destas pessoas ficam sempre fora. Ou então são péssimos fotógrafos, e claro que não queremos um relacionamento com uma pessoa que não sabe tirar fotos como deve ser! O que seria da nossa figura se nos tirassem uma foto a nós?

Mente quem diz que nunca olha para as fotos de outra pessoa, nestas situações. Na verdade, é a primeira coisa que vai ser vista. Pois há sempre a esperança de se poder ver mais do que é solicitado. Já que é grátis... porque não? Mas depois de se ganhar a coragem, vem a desilusão, pois quase ninguém consegue "mandar uma para a caixa". É quase impossível haver uma atracção através das palavras e tudo tem de funcionar primariamente pela imagem. Pergunto-me porque é que, mesmo assim, esta imagem não pode ser mais simples e descontraída. Ao analisar, percebemos a lógica. Se uns fazem, os outros todos também o podem fazer. Fora os que fazem mais do que um registo, podendo haver o registo para as "amizades" e o registo para as "sexualidades". A tendência é "se é bom, é para mostrar". E porquê? Porque se a tendência fosse mostrar as capacidades intelectuais... este mercado acabava. Vale mais sermos fúteis e termos algum proveito, digamos uma vez por semana (ou 7 no caso das "pitas"), aproveitando "o que a vida nos dá", do que adicionar contactos e manter conversas sem rumo durante meses a fio até descobrirmos a indisponibilidade da outra pessoa. Para os inteligentes, melhores dias virão. É preciso aguardar até este mercado ficar saturado. Com esta economia de escala, o sector da prostituição acaba por ser o mais afectado; por outro lado, pode passar a ser o maior sector económico, a título gratuito, que este país venha a ter.

Definitivamente... já me pergunto onde foi tirada aquela fotografia daquele documento legal...